Recebi um convite que fez com que eu me sentisse muito especial: uma amiga querida comemoraria seu aniversário na casa dos tios, com toda família, num almoço desses maravilhosos, com milhões de calorias para as quais a gente nem liga nesse contexto.
Do lado de pai, tenho muitos tios e primos mas pouquíssimo convívio. Embora meus almoços, jantares e festas com parentes tenham sido em sua maior parte do tempo na mesa Cimo do lado da mãe, com poucos integrantes, me lembro com carinho de ir à casa da Ti Dete, irmã da vovó, sempre lotada de gente do seu sangue (tá bom, ali nem era assim, pois dona Celinha era, como dizia, “filha de criação”) da qual você fazia um exercício árduo de memorização para lembrar o nome de cada um.
Porque família só crescia naqueles tempos. Hoje são no máximo dois filhos por casal, de uma geração que já veio abreviada. Grande família na vida acaba sendo constituída de amigos tão caros que viram quase irmãos. De modo que podemos enfim recontar histórias em tornos de mesas fartas e barulhentas.
Mas reunião como as de antes e a que perdura na casa de alguns privilegiados, como a minha amiga, tem outras cores. O sabor também é sem igual. Difícil traduzir em palavras. Há um tempero especial que jamais reproduzirei na minha cozinha. Tento descobrir o que é e todas essas cozinheiras de mãos cheias, como a minha avó, as minhas tias-avós, as tias da minha amiga respondcm com uma quase modéstia: “é porque eu faço com carinho. Não tem nada de mais”.
Imagine que eu tive uma fase de anos de paladar restrito. Depois de adulta, passei a comer o que rejeitava. De vez em quando fico triste, pois era algo que vovó fazia e eu recusava. Vontade de pegar uma máquina do tempo, sentar à mesa e provar o bacalhau dela. Vontade de repetir para ver o sorriso dela.
Pois hoje, ao chegar no almoço festivo, havia uma cozinha disputada e cada tia se esmerando em sua especialidade: o feijão, o arroz, a farofa, o angu, o pernil, os vários doces. Na outra extremidade da casa, a vedete do evento: moela. A autora da iguaria estava 24 horas por conta do preparo. Um cheiro maravilhoso tomava conta dali; um cheiro que não sentia há mais de uma década. “Nesse molho eu uso apenas tomate e cebola. Não gosto desses enlatados, dão azia”, avisou a tia.
Experimentei e de agora em diante vai ser difícil achar um comparativo. Por que mesmo eu não comia moela? No papo à beira do fogão, descobrimos que o esconderijo era proposital: o prato não poderia jamais ficar perto dos rapazes e suas cervejinhas, sob o risco de virar um tira-gosto e tanto.
A todo momento, uma tia brincava comigo: “você deve estar assustada com tanta gente falando ao mesmo tempo” ou “todo mundo na família é desse jeito, vai se acostumando”. Todos de um carinho tão legítimo que tive que segurar o choro (daí me lembrei do Vô Nunzio, daquela outra ponta, que sempre chorava quando reunia o maior número de filhos, noras, genros e netos em torno de sua mesa).
Encontros como esse são cada vez mais raros e só trazem as melhores recordações que tenho nessa vida. Todo mundo ri, fala de política, de futebol, da sogra, do tempo e este mesmo parece voar. Mesa de doces com tortas, manjar de côco (vovó fazia) e ambrosia anuncia que a tarde chegou e nem nos demos conta.
Cafezinho com broa, mais conversa na varanda… até que os primeiros começam a se despedir. Os tios e tias da minha amiga me abraçam, me convidam para que eu retorne: “todo domingo aqui é assim”.







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