O silêncio e a cumplicidade de rechear pastéis.
Era tudo o que eu queria agora.
Meus dedos miúdos, minhas mãozinhas de fada, como a vovó chamava, colocando o queijo no meio da massa. Molhar a borda com água filtrada, amassar delicadamente com o garfinho.
Ver dona Celinha colocando palito de fósforo na gordura e achar que aquilo era mágico.
Eu queria uma porção de pastéis quentinhos, como o abraço dela.
E depois ver o pôr-do-sol na varanda.
Esperar a primeira estrela no céu e fazer o pedido.
Acreditar que ele irá se realizar.
Mas ali não há mais cozinha. É um espaço dentro de uma casa com a placa “Aluga-se”.
Eu queria o pastel, o fim de tarde e a vovó dizendo que eu sou uma boneca russa.
Um tipo de colo que nunca mais terei.
Posso reproduzir isso numa receita, numa lembrança e na imensa saudade.
Estranho desejar queimar a língua (eu nunca esperei esfriar), voltar para os tempos de colégio (e fazer lições odiosas de matemática) e ter de novo receio da kid, a cachorrinha pequinês da casa que morria de ciúmes de mim.
Se eu soubesse que duraria tão pouco, conseguiria eternizar aqueles momentos?
